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  • 'Instalação 'Fábrica', de Daniel Blaufuks, reflete sobre crise econômica na Europa '

    03 / 04 / 2014

    O fotógrafo, escritor e diretor português Daniel Blaufuks estará com a exposição Fábrica na Usina Cultural Energisa a partir do dia 04 de abril. A exposição faz parte dos eventos do Festival de Cinema dos Países de Língua Portuguesa (Cineport) que acontece em João Pessoa até o dia 13. Na instalação, Blaufuks ‘percorre’ a segunda maior fábrica têxtil da Europa, construída próxima a cidade do Porto, em Portugal, revelando os vazios e os silêncios que hoje 'preenchem' espaços que já abrigaram cerca de 5 mil trabalhadores.

    O objeto analisado por Blaufuks é a Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela, em Santo Tirso, fundada em 1845. A fábrica está desativada e tem cerca de nove mil metros quadrados. O gigantismo da estrutura causou um "espanto inicial" no fotógrafo e acabou por influenciar seu trabalho.

    No entender do artista plástico, Fábrica não procura apenas entender a indústria têxtil Rio Vizela, é um trabalho sobre a ideia de como a Europa se afastou do tempo industrial. Nesse sentido acaba fazendo uma reflexão política sobre o desaparecimento da classe operária. “Fundamental pensar nisso. Porque no fundo tem muito a ver com a crise em que a Europa se encontra", acrescenta, ainda que recuse qualquer nostalgia sobre esse tempo.

    Na exposição, Blaufuks utiliza fotografias da década de 50, da época em que a fábrica ainda funcionava. Ele trabalha também com objetos e documentos, compostos por carimbos, fichas de trabalhadores, folhas de salário, regulamentos, moedas de cartão, entre outras fontes. Imagem, som e documento constituem a base de criação do artista, tornando Fábrica não só num ensaio sobre uma ideia de fábrica, abstrata e genérica, mas também numa reflexão sobre o esquecimento e o abandono.

    Por fim, o fotógrafo ainda nos traz o resultado de sua pesquisa em um livro (na foto acima Blaufuks segura o livro) com o mesmo título da exposição, que acaba sendo a obra central da instalação. De certa forma o livro é o que permanece após ser desmontada a exposição e para onde convergem todos os dados da obra de Blaufuks, que tem em seus temas de predileção a ligação entre o tempo e o espaço e a representação da memória privada e pública.

    Biografia - Daniel Blaufuks nasceu em Lisboa, em 1963. É um fotógrafo Português neto de alemães judeus Ashkenazi que se mudaram para Portugal entre as décadas de 1920 e 1930. Passou vários anos trabalhando com importação e foi esse negóco que lhe forneceu seu primeiro e último trabalho regular. Blaufuks queria ser um escritor desde pequeno, mas faltava confiança em sua capacidade .

    Ele estudou fotografia e começou a sua carreira de freelancer para o jornal semanal de música Blitz, seguido pelo jornal O Independente e, mais tarde, a revista Marie Claire portuguesa. Em 1989, ele ganhou o Prêmio Kodak Português e em 1996, estava entre os oito primeiros escolhidos para o Prémio Europeu de Fotografia.

    No decorrer de sua carreira, Daniel Blaufuks já publicou diversos livros (My Tangier, em 1991; The London Diaries, em 1994; Ein Tag in Mostar (1995) e Uma Viagem a S. Petersburgo, em 1998). Já viveu na Inglaterra e Estados Unidos e viajou pela Europa, Índia, Rússia, África e América do Sul.


    Além de produzir inúmeras exposições, Blaufuks dirigiu filmes e vídeos : “A vida não é um piquenique” (1998, um filme sem uma história ); Preto e Branco (2000, a história de uma menina que se torna cega para as cores), Under Strange Skies (2002 , um documentário sobre a refugiados judeus em Lisboa durante e após a Segunda Guerra Mundial ), Paisagens Invertidas (2002, um filme sobre a arquitetura Portuguesa), e Um Pouco Menor do que Indiana (2006, um documentário sobre Portugal contemporâneo ).

    Confira abaixo texto de Blaufuks sobre a Fábrica:

    Fui até à Fábrica, porque tinha ouvido dizer que um dos meus cineastas amados (Victor Erice) ia lá filmar. Por isso decidi ir e observar o seu trabalho. Mas foi o espaço que me surpreendeu mais, a sua dimensão e o seu vazio. Como numa casa abandonada, da qual os habitantes há muito partiram, também ali, naquele gigantesco lugar, era como se flutuasse algo fantasmagórico, algo não palpável.

    Mas quando comecei a pensar mais sobre o lugar, percebi que não era apenas o vazio mas a ausência. A ausência das máquinas, que antes preenchiam o espaço, a ausência do ruído ensurdecedor que estas máquinas fariam, a ausência agora de razão para tudo isto, mas, acima de tudo, a ausência das pessoas, das gerações de trabalhadores, que aqui passaram a maior parte das suas vidas. gerações de avôs, pais, filhos e netos e avós, mães, filhas e netas e novamente avós... para onde foi toda esta gente? Aliás, para onde foi a classe operária?

    Existe uma fotografia antiga de um imenso encontro destes trabalhadores, uma refeição em redor de longas mesas com tampo de mármore num dos hangares da fábrica. Podemos ver homens, mulheres e alguns rapazes, que seriam provavelmente operários também. Não pode ter sido um almoço habitual num dia de trabalho normal, porque conseguimos perceber as roupas de domingo e há vinho no topo das mesas. Muitos olham directamente para nós, o fotógrafo, que se deve ter posicionado um pouco mais acima, para conseguir captar dentro do seu aparelho toda esta gente. E o que é mais aterrador é que ninguém, mas ninguém mesmo, está a sorrir ou sequer com um aspecto descontraído. Pelo contrário, muitos parecem literalmente acossados, a maioria olha-nos seriamente e bastantes tem um semblante simplesmente triste. Para a grande parte seria decerto a primeira e única vez em que seriam fotografados, daí que alguma consciência deste momento de posteridade tenha assumido igualmente o seu papel. Mas, mesmo assim, nada nesta fotografia parece indicar uma celebração, mas será que poderia ter sido outra coisa para os patrões da fábrica que organizaram a refeição, encomendaram o vinho e remuneraram o fotógrafo?

    Agora tudo desapareceu, tudo menos o espaço. Os trabalhadores desapareceram, da mesma forma que os operários desapareceram ao sair pelo portão da fabrica no primeiro filme dos irmãos Lumière. As máquinas foram vendidas ou destruídas há muito tempo. A indústria foi praticamente erradicada desta região, assim como a classe operária. O que restará, para além de espaços desertos, fotografias amareladas e memórias de família, pergunto-me. O que era importante nesses dias parece não ter qualquer relação com o presente. A distância entre a área fabril e os elegantes escritórios da administração era muito maior do que o que nos parece agora, agora em que tudo está vazio, desolado e silencioso.

    Deve ter sido um lugar aterrador, com todos os têxteis em alta rotação, a velocidade das máquinas, os operários analfabetos, que chegavam das aldeias pobres nas redondezas.

    Não deveríamos sentir demasiado a sua falta. Um inferno desmantelado.

    Daniel Blaufuks

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