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  • 'Eugênio Tavares: o versátil das artes'

    22 / 09 / 2011

    Por Bruno Calixto
    Colaborador

    Documentário de Júlio Silvão destaca a pluralidade cultural de um gênio cabo-verdiano

    Se para a nova geração de artistas de Cabo Verde Eugênio Tavares é uma referência bibliográfica, para o cineasta Júlio Silvão o legado do poeta, músico e escritor africano carrega um emblema bem mais encorpado. Ao trazer seu documentário “Eugênio Tavares ‘Coração crioulo’” ao 5º Cineport, em João Pessoa (PB), Silvão pretende descortinar o aglomerado de histórias sobre o gênio cabo-verdiano que deu corpo e sentimento ao contexto artístico de seu povo. “Ele, de certa forma, moldou a alma crioula, a maneira de ser, sentir e agir dos cabo-verdianos”, ressalta o cineasta, um dos poucos “sobreviventes” do segmento cinematográfico de Cabo Verde.

    O projeto inicial do filme, exibido na última quarta durante a sessão DOCTV CPLP, tinha 26 minutos de duração. No entanto, como conta Júlio Silvão, ele precisou ampliar o tempo do documentário para 52 minutos, conforme a exigência do concurso realizado pela rede CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) em 2009. “O filme estava pronto mas faltou financiamento. Diante disso, optei por inscrever a obra no DOCTV CPLP, que disponibilizou €$ 50 mil para cada projeto”, explica. Além de Cabo Verde, os países Brasil, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Macau (que mesmo ainda sob o domínio colonial chinês pleiteou uma vaga na CPLP) estão entre os beneficiados pelo fundo criado por meio da parceria entre os ministérios da cultura de Brasil e Portugal.

    Ao implementar mais informações no documentário, Júlio Silvão percebeu que essa seria a oportunidade para explorar outras “artimanhas” – além da poética – de Eugênio Tavares. “Não foi tão difícil mesmo, afinal ele é um personagem polivalente, capaz de impressionar tanto como escritor quanto músico e jornalista”, ele diz, sobre a vida e obra do artista que morreu em 1937. “O mais complicado, aliás, foi encontrar pessoas para falar sobre um cara que partiu há tanto tempo”, ele pondera.

    O êxito da busca não demorou. Silvão encontrou uma senhora – hoje com 90 anos – que, aos 7 anos, aprendeu a cantar com Eugênio. “Ela é a prova viva dos ensinamentos do Eugênio, que deixou, ainda, a lembrança de um típico boêmio do cenário cultural de Cabo Verde. Natural da Ilha Brava, em Cabo Verde. Aliás, a fama de mulherengo também entrou para o currículo do poeta, que, mesmo educado na Igreja Católica – como a maioria dos crioulos - chegou a compor uma música para a Igreja Nazarena, de cunho protestante. Um dos personagens do filme, inclusive, é um pastor que conta os detalhes desta história. “Ele fez a canção pois estava apaixonado pela filha do pastor, que ao perceber o romance mandou a filha para os EUA. E a letra fala sobre isso. Afinal, o amor ainda parece o melhor ingrediente para o sucesso de qualquer artista. Independentemente do dialeto.

    Os desafios vencidos pela esperança

    Embora fechado na vida do poeta Eugênio Tavares, o argumento do filme de Júlio Silvão adota como essência a morte. “Há inúmeras histórias envolvendo o nome de Eugênio, por isso conto com personagens participativos para falar de alguém que cantava a poesia. Espero tocar a todas as gerações com esse documentário autobiográfico, pois os mais novos continuam buscando a referência de histórias assim”, opina Silvão.

    Sem familiares diretos ainda vivos, Eugênio Tavares deixou como herança o desafio de ser plural. Júlio Silvão comenta que seus feitos têm servido de base para estudiosos de diferentes ramos, como Brito Simedo, que também se tornou personagem do documentário por utilizar a memória do gênio das artes cabo-verdianas para concluir seu doutorado.

    Para uma nação cujo nome remete á esperança, Cabo Verde vem, aos poucos, conquistando seu espaço no universo do audiovisual em diferentes partes do planeta. Não seria diferente no Brasil, afinal a língua portuguesa, em comum aos dois países, é uma ponte que diminui o vão geográfico. O documentário “Eugênio Tavares ‘Coração crioulo’”, por exemplo, saiu do país africano pela primeira vez para ganhar a atenção do mundo no Cineport. “Minha proposta foi muito bem aceita por aqui. Infelizmente, em Cabo Verde, não há política pública voltada exclusivamente ao cinema”, lamenta Júlio Silvão, revelando suas armas para ganhar a batalha contra a inexistência de subsídio. “Coloquei minha casa à disposição de um banco para garantir financiamento”, conta. “Mas foi graças aos €$ 50 mil do concurso (DOCTV CPLP) que foi possível concluir e distribuir o filme. E ainda me sobrou uma quantia para adquirir equipamentos de edição”, completa o cineasta, anunciando ainda a ficção “Triângulo virgem” para 2012. “Vou aproveitar minha vinda ao Cineport para buscar parcerias”, finaliza Silvão, comprovando que está disposto a seguir ao lado da esperança. Seja do lado de lá ou de cá do Atlântico.

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